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MEMORIAS DA GESTÃO HIRTENKAUF NA CERVEJARIA POLAR DE ESTRELA Texto gentilmente cedido pelo autor Resolvi fazer uma regressão mental e comecei a escrever o que me vinha na lembrança. Em 1949 quando chegamos a Estrela, o Grupo de empreendedores da Época tinha como base suas atividades na Sede em Santa Cruz dos Sul ligadas a laticínios e em Guaporé uma arcaica Maltaria, que produzia malte para a produção de cerveja para a pequena cervejaria Polar em Estrela. O Sr. Petar Hirtenkauf (meu pai) que até então trabalhava na Antarctica em São Paulo, veio a convite dos diretores da época para substituir o Mestre Cervejeiro Sr. Meintzer que já estava com idade avançada.
Naquela época quase todos os serviços eram manuais e a produção muito limitada. Meu irmão, Dragutin (Carlos) Hirtenkauf também começou a trabalhar juntamente com o meu pai, sendo que ele como empregado comum, passando por todos os estágios da cervejaria, inclusive carregando sacos de matéria prima que vinham com os caminhões bem como engradados de cerveja.
A medida que ele ia inteirando-se do processo de fabricação, Carlos ia avançando de posto e função, até o ponto em que os dois começaram a desenvolver soluções para aumentar a produção, o que implicaria em novas caldeiras, novos porões de fermentação e maturação e novas maquinas para mecanizar a produção e consequentemente novos espaços com prédios enormes para produção, estocagem e administração. Em paralelo se fazia necessário aumentar e modernizar a Maltaria em Guaporé o que fez com que o Carlos morasse por alguns meses nesta cidade para implantar as modernizações juntamente com o técnico da época o Sr. Nohel. Quando o Carlos atingiu todos os conhecimentos práticos e teóricos, bem como a idade mínima para se diplomar em Mestre Cervejeiro foi enviado para Munique na Alemanha prestar exames nos quais conseguiu o 1º lugar do grupo, cujos alunos eram muito cobiçados em todo mundo por outras cervejarias, fazendo com que ao invés de retornar para a Cervejaria Polar, ele seguisse para a Cervejaria Barranquilla, na Colômbia o que deixou o pai muito ressentido. Porém um cálculo Renal mudou todo o rumo das coisas; ou seja meu pai deveria ser submetido a uma cirurgia e para tal ele solicitou que o Carlos o substituísse temporariamente na Cervejaria Polar.
Os dirigentes da cervejaria Barranquilla não permitiram sua saída, mesmo que temporariamente provocando uma revolta no meu irmão que abandonou a empresa de qualquer forma, vindo à Estrela para atender ao apelo do pai e acabou ficando ao lado dele não somente durante a cirurgia, mas até o fim da Gestão dos Hirtenkauf. Na Colômbia o Carlos já havia inovado com tecnologias resfriando os tanques de fermentação com serpentinas soldadas diretamente neles fazendo circular água gelada com controle de vazão, controlando desta forma a temperatura ideal para a fermentação, o que antes era feito de forma diferente, ou seja, resfriava-se todo o porão e todos os tanques nele instalados eram resfriados pela ação indireta de circulação forçada do ar frio no ambiente de todo o porão. Estas mesmas técnicas foram também adotadas na Polar e foi um sucesso. Naquele tempo os velhos mestres cervejeiros não admitiam este tipo de solução, pois diziam que isso provocaria um choque térmico matando as bactérias benéficas do levedo da cerveja. Hoje praticamente todas as plantas industriais de cervejarias adotam este sistema o que pode ser visto por qualquer pessoa que olhado para uma planta industrial observa cilindros verticais instalados ao tempo e que são de aço inoxidável e isolados termicamente por uma camada de Poliuretano protegido por chapas de alumínio dando um aspecto até agradável. Com o passar dos anos foram inovando e ampliando cada setor ao ponto de produzirem em um dia o que eles produziam em um ano quando iniciaram as atividades em Estrela.
As estradas da época que ligavam Estrela à Porto Alegre não eram pavimentadas e tinham outros percursos fazendo uma viagem de caminhão durar até 6 horas. Este fato obrigava a Cervejaria Polar ter certa autonomia em termos suporte eletromecânico com pessoal e oficinas próprias, porque não poderia esperar 12 ou mais horas para depender de Porto Alegre em termos de solução a certos problemas de manutenção, principalmente nos períodos de verão com capacidade nominal da cervejaria. Uma das primeiras inovações que meu pai conseguiu implantar foi evitar a colocação de Selos em cada garrafa por questões de higiene, até então o ICM era pago por cada Selo, posteriormente a cervejaria pagaria por hectolitros ano produzidos. Imaginem uma garrafa de cerveja gelada que na época era muitas vezes colocada em tanques com gelo e sal ficando toda molhada ou até pela condensação da umidade do ar ao ser levada a mesa do restaurante o garçom abrindo diante do cliente a tampinha rompendo o Selo e servindo a bebida no copo escorrendo por sobre as sobras do Selo cheio de bactérias e sujeiras, isto era inviável. Posteriormente devido ao tempo de viagem da bebida sobre os caminhões exposto ao sol, sofria a influencia da radiação ultravioleta diminuindo a vida media do produto, fez com que se engarrafasse a cerveja em garrafas de vidro marrom cor âmbar mais imunes a estas radiações e consequentemente criaram uma Marca nova chamada CASCO ESCURO em função da garrafa escura. Este lançamento teve tanta aceitação que a fabrica de garrafas na época Vifosa passou a produzir garrafas marrons somente para a Cervejaria Polar e mais tarde para as demais cervejarias. Não tardou muito começaram a fazer os cálculos do custo dos fretes de vasilhame, o que novamente resultou num novo tipo de garrafa feita de vidro laminado que tinha paredes bem mais finas com menor consumo de vidro cujo objetivo era evitar o retorno da mesma para ser envasada novamente, chegava a época da garrafa One Way. Neste mesmo período outras cervejarias começaram a lançar cerveja em latas que mesmo pagando royalties para o fecho da tampa e custando na época 5 vezes mais passou a ter maior preferência devida a robustez e facilidade no transporte, e com a adesão de outras empresas entrou numa escala de produção diminuído o custo tornado-se viável comparada ao vidro e hoje em dia e fabricada em larga escala. Com o aumento da produção a cervejaria tinha que ampliar os porões e os tanques de fermentação fazendo com que encomendassem na época da Metalúrgica Vogg os maiores tanques já fabricados em ferro que para o transporte até Estrela foi uma odisséia e para o tratamento de superfície também foi adotada uma novidade juntamente com a empresa fabricante de tintas industriais Kresil. Cada tanque era montado na posição horizontal num galpão especificamente adequado para esse fim, recebendo um tratamento com jato de areia interna e externamente e no Maximo uma hora após, eram pintados a pincel com tinta epóxi bi componente com um micragem que garantia estocar o produto sem risco de oxidação.
Externamente eram revestidos por uma camada de Poliuretano aplicado a pistola suficientemente para o isolamento requerido. Neste período foi lançada uma nova marca de cerveja chamada de POLAR EXPORT cujo rotulo foi concebido e desenhado pelo próprio Carlos e para dar um efeito especial, ao invés de rótulos de papel eram rótulos aluminizados que davam as partes douradas da águia um efeito metálico muito lindo e passou a ser uma preferência não somente na região como em todo o Estado. Como conseqüência desta inovação surgiu um novo problema com a maquina lavadora de cerveja; ou seja, os rótulos anteriormente de papel eram removidos das garrafas pela ação de produtos a base de soda caustica, mas que não tinham efeito sobre o decomposição dos rótulos aluminizados que era removido da garrafa como uma lamina inteira e não esfarelada causando o entupimento dos ralos de água servida da maquina. Este fato obrigou ao Carlos a reformular a maquina lavadora para se adequar as novas características destes rótulos. Outrossim, este fato possibilitou a modificação em outros pontos da maquina lavadora ao ponto dela conseguir lavar 50% acima da capacidade nominal de origem do fabricante.
Inclusive surgiu uma aposta com a empresa fabricante de maquinas lavadoras da época, ou seja, a cervejaria Polar estava encomendando novos equipamentos e o Carlos exigia no novo fornecimento a inclusão das alterações que ele havia implantado ao que o fabricante se negou afirmando que era uma empresa tradicional de fabricação de maquinas especializadas para cervejarias e que seguiria rigorosamente os projetos da empresa de origem Alemã e que não faria alterações. Diante do impasse o Carlos propôs a equipe de engenheiros desta empresa que pagaria toda a despesa de transporte aéreo e de hospedagem até a cervejaria Polar se o que ele afirmava não fosse verdade e em caso contrario eles suportariam todos os custos e seriam obrigados a adotar as inovações por ele impostas. Não deu outra; ou seja, todos ficaram boquiabertos com o que viram e passaram a adotar as mesmas soluções nos outros fornecimentos para outras cervejarias. A cervejaria Polar passou a se destacar no cenário nacional ao ponto de chamar a atenção de outras cervejarias na época, pois dentro das proporções dimensionais desta empresa era a que apresentava a maior lucratividade. Na época para competir, a Cervejaria Polar teria que aumentar a sua produção em função dos concorrentes o que ela tentou inicialmente exportando para o Nordeste do país a cerveja já famosa, Polar Export, cujo procedimento inicialmente era feito via rodoviário de Estrela até o Cais do Porto de Porto Alegre com translado para o navio e depois do navio novamente para os caminhões do Nordeste,que não foi bem sucedido devido a muita movimentação do produto causando muita quebra no percurso.Diante do exposto foi tentado um novo procedimento no qual as garrafas não eram colocadas em engradados e sim empilhadas sobre a carroceria dos caminhões uma sobre a outra apenas protegidos por um capuz de palha típico utilizado para proteger garrafas de vinho e assim o caminhão seguia diretamente desde a cervejaria até seu destino no Nordeste sem nenhuma quebra. Este procedimento permitia a cervejaria manter a mesma demanda de verão igual a do inverno, mesmo assim era necessário ampliar e investir mais para atender a demanda a nível nacional o que era inviável com capital próprio foi quando surgiu a proposta da cervejaria Antarctica de São Paulo oferecendo um bom preço para a compra da Cervejaria Polar o que foi efetuado. A partir deste momento o Sr. Petar Hirtenkauf (meu pai),que sempre foi o Mestre Cervejeiro se aposentou e o Sr. Carlos que chegou a galgar o posto de Diretor Técnico, foi vitima de doenças simultâneas, de Diabetes, problemas Renais e Hipertensão que o impediram de continuar atuando no grupo e também se retirando da empresa e vitimando-o com apenas 42 anos de idade. A cervejaria Antarctica que havia comprado então a cervejaria Polar cogitou inclusive do Carlos participar da implantação de uma nova unidade , mas que foi inviável face ao estado avançado de sua doença. Hoje lamentavelmente todo este complexo que alem de gerar na época a maior receita para o município está desativado provocando desemprego e sem um futuro para o município de Estrela. Na Europa muitas pequenas cervejarias foram compradas por grandes grupos, mas mantiveram suas características regionais de marca garantindo a cada micro região a sua autonomia e a tradicionalidade do produto consumida na própria região, ao contrario do que se pratica no Brasil onde somente são praticados projetos megalômanos, esquecendo-se do lado social de cada micro região.
Atualmente sabemos que o complexo foi vendido parte para Prefeitura de Estrela e parte para a empresa Conpasul.
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